"Os meninos perguntaram o meu nome e sairam sorrindo para mim. Penso: porque será que os meninos que fogem do Juizado vem difamando a organisação? Percebi que no Juizado as crianças degrada a moral. Os Juizes não tem capacidade para formar o carater das crianças. O que é que lhes falta? Interesse pelos infelizes ou verba do Estado?"
(página 88)

Nesta situação dois meninos estavam fugindo do Juizado de Menor, a notícia espalhou-se pela comunidade e então Carolina ajudou os dois jovens em fuga, oferecendo comida e dando roupas. Ano passado, na disciplina de Português, li o livro Capitães da Areia e nele também é citado o Juizado de Menor que existia naquela época. Nos dois livros esta organização aparece da mesma forma, como um lugar aterrorizante, traumatizador e com péssimas condições de vida. Um pouco antes do ocorrido, dos dois meninos em fuga na comunidade, Carolina estava pensando em colocar seu filho José Calos no Juizado, pois ele estava passando muito tempo nas ruas, chegando tarde em casa, tendo comportamentos que a autora como mãe e mulher que residia na favela temia. Ela tinha medo de seu filho tornar-se um homem ruim e seguisse caminhos errados, além disso as outras pessoas que moravam perto de Carolina, diziam que tudo que estava acontecendo de mal na região onde ela vivia era culpa de seu filho e a autora não queria todo esse julgamento para ele. Por estes motivos ela acreditava que o melhor seria "internar" seu filho no Juizado, como a mãe de José diz. Então quando aparece aqueles dois jovens fugindo daquela instituição, Carolina percebe que lá as crianças não aprendem nada e são submetidas a violências psicológicas, físicas que causam traumas e tudo isso com a desculpa de reeducar e realocar o jovem na sociedade.
"(...) O senhor Manoel chegou. Deu-me 80 cruzeiros, eu não quiz pegar. Procurei as crianças para tomar banho. Ficaram alegres quando viu o senhor Manoel. Eu disse para o senhor Manoel que ia passar a noite escrevendo. Ele despediu-se e disse:
-Até outro dia!
Nossos olhares se encontraram e eu lhe disse:
-Vê se não volta mais aqui. Eu já estou velha. Não quero homens. Quero só os meus filhos.
Ele saiu. Ele é muito bom e iducado. E bonito. Qualquer mulher há de gostar de ter um homem bonito como ele é. Agradável no falar.
... O Frei Luiz apareceu e deu aula de catecismo para as crianças. Fizeram uma procissão. Eu não compareci."
(página 101)
Neste trecho Carolina mantém o que diz , que como ela é uma mulher que reside na favela e tem três filhos para cuidar, não pode distrair-se com homens. Acho muito digna esta atitude da autora, sempre coloca-se em segundo plano e da prioridade a seus filhos, muitas vezes até em situações que ela poderia pensar mais nela. Não sei bem o porquê, mas acho que Carolina acredita que não merece, não tem direito ou simplesmente não faz sentido fazer algo em prol de si mesma, por residir no Quarto de Despejo e por já ser uma mulher de idade. Durante a leitura do livro percebo que Carolina admira e apoia os atos de muitas pessoas, mas nunca os seus sendo ela uma grande mulher batalhadora, mãe solteira, moradora de comunidade, vítima da fome e da miséria, mas acima de tudo né uma mulher que ajuda o próximo, sonhadora, que preza pelas crianças e admira a arte em todas as formas de expressar-se.
"8 de agosto Saí de casa as 8 horas. Parei na banca de jornais para ler as noticias principais. A policia ainda não prendeu o Promessinha. O bandido insensato porque a idade não lhe permite conhecer as regras do bom viver. Promessinha é da favela da Vila Prudente. Ele comprova o que eu digo: as favelas não formam carater. A favela é o quarto de despejo. E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo."
(página 107)

Neste fragmento do diário de Carolina a parte "Ele comprova o que eu digo: as favelas não formam carater. A favela é o quarto de despejo. E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo.", me chamou atenção. As comunidades são ignoradas e esquecidas pela sociedade e principalmente pelo governo que tem o dever de extinguir este modo de vida precário, um dever que não é cumprido. Quando digo em acabar com as favelas não me refiro ao que Carolina cita em seu diário e que de fato ocorreu, que foi a ideia de acabar com a favela do Canindé e construir uma via no mesmo lugar onde pessoas que já sofriam uma exclusão da sociedade, vivendo na miséria, foram afetadas ainda mais com a perda de seus lares, deixando milhares de pessoas desabrigadas, com fome e sem nenhum lugar, pessoa ou qualquer suporte do governo para recorrer e receber ajuda para recomeçar a vida. Esse pode até ter sido um dos grandes causadores de outro gravíssimo problema social que é o número de moradores de rua. Muitas pessoas falam que a favela é um lugar sujo, propenso ao crime e diversas outras coisas horríveis, muitos desses indivíduos não param para pensar e perceber que as comunidades, que só crescem em nosso país, são uma consequência da nossa sociedade, que excluí pessoas de classe baixa, negras, que dá oportunidades e privilégios somente para aqueles que possuem poder aquisitivo. Ai vem a pergunta "isso está certo?" e a resposta é NÃO! O sistema em que vivemos hoje é completamente egoísta, preconceituoso e individualista, não importa a quantidade de dinheiro e bens que possuímos ou qualquer característica todos somos iguais e merecemos viver nas mesmas condições de vida.